ENGLISH

25/07/2012
Batemos no teto: limites e perspectivas da autogestão habitacional no Brasil

Entrevista com Pedro Fiori Arantes, Arquiteto e Urbanista, doutor em Tecnologia da Arquitetura pela FAU-USP e professor de História da Arte na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É integrante do coletivo Usina, assessoria técnica de movimentos populares em políticas urbanas e habitacionais. Autor de Arquitetura Nova (Editora 34, 2002), e organizador da coletânea de textos de Sérgio Ferro, Arquitetura e trabalho livre (CosacNaify, 2006).


Pedro relata a experiência das assessorias técnicas e sua relação com os movimentos sociais a partir do coletivo Usina. Pedro fala sobre a assessoria da USINA, um grupo autogestionário, a outros grupos autogestionários, sobre conjuntura, questão fundiária, reforma urbana, faz uma reflexão crítica das contradições do processo e aponta perspectivas e uma provocação aos grupos autogestionários de Porto Alegre.

Concedida à Giana Rocha (Escritório Modelo Albano Volkmer), Felipe Drago, João Rovati, Lucimar Siqueira e Sérgio Baierle (ONG Cidade), na sede da ONG Cidade, Porto Alegre, em 10 de dezembro de 2011.

Sobre a Usina

A Usina surgiu nos anos 1990, era ainda quase um escritório de arquitetura convencional, com alguns técnicos sociais, um advogado. As assembleias eram feitas somente entre os associados, tinha até o sindicato dos funcionários da Usina. Isto foi, aos poucos, sendo transformado com a minha geração que, a partir do ano 2004 “assumiu”.

A gente resolveu fazer uma autogestão radical. Primeiro, a gente tinha uma secretária, não vai ter mais. Vamos fazer o trabalho nós mesmos. Tinha faxineira, vamos fazer faxina nós mesmos. Tinha seis faixas de remuneração, vai ter só uma faixa. Não vai ter mais estagiário, só vai ter profissional que pode se responsabilizar tecnicamente pelo que faz. Então todo mundo recebe o mesmo valor/hora. Teve gente que foi rebaixado. A idéia era distribuir responsabilidade para todos. Tem que ter troca de experiência, tem os mais e os menos experientes, tem gente que é melhor numa coisa ou noutra. Isto tudo tem que ser intercâmbio constante e o mais aberto possível.

A gente definiu também o trabalho de meio período, ninguém mais fazia 40 horas na Usina, todo mundo fazia 20 a 24 horas, assim as pessoas teriam outra fonte de renda, dada nossa instabilidade. Em geral, seguiram carreira acadêmica, então a geração nova da usina é de arquitetos-intelectuais, professores.

Todo o sistema de pagamento é transparente, a gente vê todas as planilhas de todo mundo, todos os balanços, tem reunião toda semana não só para discutir questões financeiras, atividades de formação, questões políticas, andamentos dos trabalhos. As equipes de trabalho são relativamente autônomas: são equipes autogestionárias dos quatro ou cinco trabalhos que estão acontecendo ao mesmo tempo. Só que elas discutem, trazem questões e dúvidas para o coletivo, consultam os arquitetos fundadores para ajudarem a resolver determinados problemas.

Todos os projetos da Usina não são autorais, no sentido de que são equipes que estão fazendo os projetos. Não tem “o projeto do Pedro”. É sempre do coletivo. A gente está com três textos para serem publicados, todos pelo coletivo e vai por uma nota de rodapé, colaboraram com este texto as pessoas tais. Também com a idéia de que a produção intelectual pode ser coletiva e não só individual.

Assessorias em SP

As assessorias técnicas em São Paulo foram sustentáveis dependendo do ciclo de políticas públicas. Tem momentos de crise profunda. É muito oscilante porque a gente depende completamente do ciclo da política pública. E também do ciclo dos movimentos. Então é essa a combinação: você tem que ter movimento organizado, movimento em luta, movimento com conquistas, e de outro lado você tem que ter políticas públicas viáveis. Movimento organizado e em luta, que é o que a gente teve no malufismo lá em São Paulo nos oito anos de extrema direita em SP, estava em luta, mas não tinha política pública. Ou, às vezes, tem a política pública e o movimento não tá em luta, que é um pouco o que está acontecendo agora. Você tem o Crédito Solidário e o Minha Casa, Minha Vida (Entidades), mas os movimentos estão muito pragmáticos no sentido de querer operar as políticas sem se mobilizar.

A Usina é vista como a assessoria dos românticos, utópicos, enfim, dos que gostam de projeto, gostam de arquitetura profundamente. Então, nossos trabalhos são muito artesanais. A gente faz um ou dois projetos por ano. Com toda profundidade, toda qualidade que a gente consegue imprimir, a qualidade dos processos, da participação, da formação técnica-política dos movimentos que trabalham com a gente. Então a gente não tem escala para conseguir ser viável financeiramente.

Nós nos colocamos a questão de que cada projeto é uma experimentação que tem que avançar. Na relação com a cidade, na relação com a tecnologia, com os processos construtivos e com a qualidade da moradia. Então, em geral, a gente espera um ciclo se concluir, para iniciar outro com os aprendizados do anterior. Então isto tudo nos coloca numa situação super prazerosa de trabalho, mas que é inviável.

Chegamos então a duas situações. Uma delas que a gente tem rechaçado, mas outras assessorias têm utilizado: fazer as famílias pagarem. Isto, aliás, é uma coisa do cooperativismo e autogestão em vários lugares do mundo, não depender estritamente do Estado, ter capacidade de ação própria. Só que agente trabalha com uma franja da população super empobrecida, das periferias. As assessorias que estão cobrando das famílias esta parte inicial de projeto, estão cobrando 1.500 reais por família. Tudo bem, parcela em um ano de cem reais, mais ou menos e vai pagando e recebendo o projeto. Só que, com isso, o movimento quase vira um agente imobiliário. O movimento está intermediando uma transação comercial para ter acesso a uma mercadoria, que é a habitação.

Com isso, o que deveria ser o mote de construção de uma unidade do movimento para a transformação, para a conquista, que é a organização política, a luta, passa a ser mediada por contratos comerciais. Mas que é, também, por este constrangimento da política pública, de não poder financiar projeto, só financia a obra. Por que isso? Porque a Caixa não pode ter risco na operação. A Caixa é um banco, é uma operação financeira de crédito que tem que minimizar o risco. Investir num projeto que depois não se realiza é algo que os técnicos da Caixa não podem aceitar de forma alguma. Então a política pública é toda feita para isso. A política é montada para empresas e não para movimentos sociais nem para assessorias técnicas.

E a outra opção que é o que a gente tem tentado fazer é procurar as prefeituras de esquerda, que ainda existem algumas poucas que topam pagar a parte do projeto. Então a gente não chega a fazer uma licitação, faz uma carta convite, que é um modo de licitação mais simplificado que vai até mais ou menos até 100 mil reais. Isto dá um fôlego pra gente segurar uma parte do projeto até dar entrada. Além disso, nestas prefeituras, a gente também tem conseguido – foi o que a gente fez em Tabuão, Suzano, Jandira, começou a fazer em Diadema, todas prefeituras do PT – que o terreno seja público e transferido para as famílias. Aí entra a questão da propriedade.

Propriedade coletiva dos imóveis urbanos

Não existe legislação para a propriedade coletiva ou cooperativa da habitação no Brasil. Nas cooperativas de produção e trabalho é possível propriedade coletiva. No caso da habitação a propriedade tem que ser individual, mesmo que seja gerido pela associação no momento da construção. Depois é individualizado, cada um é um mutuário que vai ter que se haver com suas prestações.  Por isso, algumas associações e movimentos têm tentado fazer assim: tudo bem, está no nome de cada um, mas que vai pagar é a associação. A associação cria, inclusive, um fundo próprio. Se tiver problemas de inadimplência, a associação paga por aquela pessoa e depois faz a negociação, para garantir que todos possam ir até o final e ninguém seja despejado.

Na propriedade coletiva, quando alguém vai embora, a cooperativa retoma o imóvel. É como se fosse a cota parte da pessoa na cooperativa. Então decide para quem vai repassar por um custo social. Ou seja, é uma garantia de que você ainda consegue segurar a mercadoria, a desmercantilização se prolonga para depois do processo de construção.

Só que a gente está muito longe da legislação de propriedade coletiva a que já se conseguiu no Uruguai, na Argentina ou no Chile. Então propriedade individual está muito arraigada, tanto na sua defesa por parte do Estado e das elites, como no imaginário popular. A noção de propriedade coletiva se construiu nestes países, não só porque eles têm uma cultura política muito mais forte do que a nossa, mas porque eles tiveram um estado de proteção social por trinta ou quarenta anos. Uma geração ou duas pegaram estas políticas nas quais a propriedade não era a salvaguarda de uma família em ultima instância, para poder bancar a educação do filho ou alguém doente. Aqui, ter a propriedade é ter a garantia de que não vai ser despejado e saber que a propriedade pode ser vendida no mercado para pagar alguma eventualidade que o nosso estado de mal estar social não cobre. No Brasil pode ter um grupo ou outro, isolado, mas os movimentos, com força, dizer: “queremos que abra nas linhas de política pública a propriedade coletiva” – não tem.

Aqui, assim que você termina a construção já é mercadoria. Fiz um projeto, construí, o projeto é bom, o apartamento é bom, é uma ótima mercadoria! Vou por a venda! E ninguém vai me impedir. Então a realização da mercadoria logo depois da construção é algo que é muito chocante porque é uma luta coletiva, toda uma mobilização coletiva que deságua no mercado.

Propriedade pública da terra urbana

A gente está conseguindo que as terras públicas sejam transferidas para os movimentos e continuem públicas. Então a gente tem uma concessão real de uso, ou concessão de uso, dependendo da situação do imóvel. E a gente tem tentado que, nas prefeituras, o contrato da CDRU seja feito com a associação e não com os indivíduos. Concessão de direito real de uso coletiva na qual são listados os beneficiários. Mas aí a associação passa a ser o agente fundamental desta história porque ela é que tem que dar a autorização para a entrada e saída de pessoas novas, se isso acontecer regularmente. O que a gente está tentando é que as associações sejam mais ativas neste entrar e sair de pessoas e que se reconheça que aquela é uma propriedade que tem que ser sempre discutida, pensada em termos de manutenção e intervenção coletiva, não é cada um por si. Mas ainda é algo muito primitivo perto do que os uruguaios já fizeram.

Acesso à terra urbana

O acesso à terra não pode ser o acesso pela lei de mercado. A Evaniza Rodrigues conta que, antigamente, quando eles iam lutar por terreno na periferia, era só movimento que queria terreno lá. Agora eles estão brigando palmo a palmo com todas as construtoras do Minha Casa, Minha Vida. E o preço da terra subindo e eles lá desesperados: mas, bom, se a gente for acessar isto daqui pelo valor de marcado, primeiro, eles estão pondo água no moinho da renda imobiliária, segundo, a Reforma Urbana “foi para o saco”. Reforma Urbana é garantir que não seja por valor de mercado.

Aqui, a questão é a seguinte: a compra da terra pelo governo ou a desapropriação está acontecendo pelo valor de mercado. Então alguém está pagando o pato. Talvez não aquelas famílias, mas a sociedade está referendando a valorização imobiliária. Teria que ter IPTU progressivo, urbanização compulsória, expropriação. Coisas que são do Estatuto das Cidades ou que aconteceram em outras políticas de reforma urbana, que aqui estão longe de acontecer.

A sacrossanta propriedade privada

Esta questão da propriedade privada que está na discussão desde o Engels, tem um sentido profundamente conservador para a classe trabalhadora porque ela referenda todo o sistema de propriedade no momento em que ela é uma pequena proprietária. Ser proprietário do seu imóvel para uso próprio, que não é um proprietário capitalista, acaba fazendo com que ele referende todo o sistema de propriedade individual. Alguém que é proprietário de um bem que tem valor de uso acaba defendendo que, de fato, todos os bens sejam propriedade individual porque, afinal, alguém trabalhou para ter aquilo. Só que aí, com esta onda de valorização, a pessoa não olha mais para sua casa como uma casa. Olha como mercadoria, como qual é a liquidez que ela tem.

Esta ilusão de que esta onda de renda vai beneficiar a todos, é que está lá discutida no Marx, n’O Capital, livro III, e depois vários teóricos, sobretudo o David Harvey, que vai qualificar toda a discussão da renda da terra por uma perspectiva marxista para entender o urbano, porque o Marx discute muito mais a renda da terra rural, uma forma de capital fictício. O valor dos imóveis está crescendo para todo mundo, mas quem está pagando? Alguém tem que pagar. Esta captura de renda é desigual. Então uma das metáforas que o Harvey usa é a renda como se fosse um canudo sugando a riqueza. Só que tem canudos de bitolas diferentes. Dependendo de como você se posiciona para extrair a renda, que é a riqueza socialmente produzida. Uma forma de captura da riqueza socialmente produzida que ainda é feita na base do trabalho, da produção do valor.

Crise imobiliária e crise financeira mundial

Existe uma ideologia pós-moderna de que não precisa mais ter trabalho, que o dinheiro vira mais-dinheiro por conta própria, que é o que o Marx chama de o fetichedo capital. No capítulo I ele discute o fetiche da mercadoria e no capítulo II discute o fetiche do capital. São as formas que chama de “amalucadas” de produção do capital, estas formas fictícias, estas formas cada vez mais abstraídas, que vão desde o lançamento de títulos da dívida pública, até os derivativos, até as novas formas de renda imobiliária negociadas, hipotecas, sistemas de crédito e tudo mais. Ninguém sabe direito se esta riqueza é real ou fictícia. Na hora que ela vai se realizar é que vai se verificar a que custo.

A crise americana de 2008 deixou 4,5 milhões de famílias na rua. São 20 milhões de americanos na rua e hoje ninguém fala disso. Tão falando de subprimee não sei mais o que. A maneira como cresce a renda da terra é uma forma de acumulação por espoliação, é o termo que o Harvey utiliza. Estes imóveis, muitas vezes deixam de ser propriedade dos donos, sobretudo nos EUA pelo sistema de hipotecas, em que a pessoa alavanca um credito para manter seu nível de consumo, ou mesmo porque os salários vão sendo achatados, muitas famílias assumiram créditos e hipotecaram suas casas para pagar estudos dos filhos, tratamento de saúde, etc. E no momento em que ela não tem mais como realizar os pagamentos, porque realizam os pagamentos vendendo trabalho, ela é despejada e perde seu patrimônio, que é trabalho passado.

O sistema das engrenagens do capital financeiro faz com que a classe trabalhadora venda seu trabalho presente na produção de valor, seu trabalho futuro, que é o endividamento e seu trabalho passado, acumulado na forma de imóveis. Então o patrimônio da classe trabalhadora vai por água abaixo. É um sistema absolutamente perverso. A idéia de que tudo pode virar uma forma de alavancar crédito, de turbinar o capital, de levantar ficticiamente a riqueza dos países é muito perversa para a classe trabalhadora. Sempre que houver uma crise são eles que vão pagar o pato primeiro. Ai o Estado vem e investe trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro, os grandes investidores. O que se calculou é que o que foi investido para salvar a crise de 2008 seria suficiente para acabar com a fome na África por 100 anos. É uma desproporcionalidade. O resgate do capital financeiro no estado atual – a gente vai ver agora a que nível vão chegar os europeus – é uma forma de extração gigantesca de riqueza, porque todo mundo vai pagar a conta. Não são somente os gregos que estão pagando. Todos os europeus e todos nós.

Então é muito complexo. As famílias estão vendo: minha casa valia 100 paus, agora vale 200. Quando você for realizar, pode ser que não se realize como 200 mil. E depois você não compra outra casa. Aí você vai morar de aluguel e vai ter outro tipo de endividamento, vai cair no sistema. O sistema de endividamento das famílias americanas era equivalente a dois anos de trabalho destas famílias. As famílias baixa renda que tinham como renda do trabalho 50 mil dólares por ano estavam endividadas em 100. Isto está crescendo no Brasil.

Estatuto da Cidade e regularização fundiária

Os dez anos do Estatuto da Cidade são pra gente avaliar o porquê de o Estatuto ser inaplicável – ou porque ele se tornou inaplicável. Temos a lei de Reforma Urbana mais moderna do mundo e ela é inaplicável, porque já foi concebida para não ser aplicável. Só são aplicados alguns dos artigos ligados à regularização fundiária e operação urbana que interesse ao capital imobiliário.

A questão da regularização fundiária é muito paradoxal. O grande defensor da regularização, que pôs um programa gigantesco na América Latina foi o Fujimori. Tiveram um programa de cinco milhões de títulos entregues. As pessoas estavam morando nos Andes, em lugares de preservação ambiental, de risco de todos os tipos. Titularam todo mundo. Era uma ideologia do Banco Mundial que um dos teóricos era Hernando de Soto, que é peruano, ideólogo do governo Fujimori, de que estava transformando os pobres em pequenos empreendedores. Então, a idéia de empreendedorismo precisa ter um lastro no pequeno capital, que é a casa com um título, pode virar mercadoria mais facilmente.

A ideia de regularização fundiária, também feita pela esquerda, toda aquela discussão de segurança na posse, contra o despejo, etc., pelo lado da visão neoliberal é o contrário, é transformar a casa em mercadoria, em algo líquido, transacionável e que desperte nos pobres que são mais ativos um espírito empreendedor.

No primeiro ano do governo Lula o Márcio Tomaz Bastos queria aplicar o programa peruano aqui. A Raquel e a Ermínia falaram: regularização fundiária tem que ser muito cuidadosa, tem que vir junto com investimento em infraestrutura e urbanização, não adianta sair titulando todo mundo, pois isto é populismo da pior espécie.

Existe excepcionalização das leis de uso do solo em função disso. O Banco Mundial estimulou que se criasse todo um sistema de legislação da cidade para os pobres, em que o lote é menor, o tipo de rede de infra-estrutura pode ser mais frágil, subcalculada e tudo mais. É um segundo padrão urbanístico, a idéia de que a cidade dos pobres pode ser uma cidade miserável do ponto de vista das qualidades urbanas. Mas quase nenhuma cidade aplicou. Santo André talvez tenha sido uma das poucas cidades, quando ainda era PT, foram lá bater na porta e aplicar IPTU progressivo e tudo mais. O governo que chegou agora cancelou tudo.

Municipalismo e Reforma Urbana

O PT sempre defendeu muito a descentralização, o municipalismo, mas porque o PT estava em muitas prefeituras. Só que aplicar uma lei de Reforma Urbana baseado em ações em nível local é muito paradoxal. Porque quem comanda os municípios são os proprietários. Eles estão na câmara de vereadores, eles é que comandam a lógica da reprodução do poder municipal, mesmo nas prefeituras do PT. A correlação de forças sempre vai ser desfavorável. A Reforma Urbana, quando deu certo, foi federal, quando aconteceu na França e em vários países da Europa. É uma ação que tem de vir do Governo Federal e “enquadrar”. Acreditou-se muito que a regulamentação do Estatuto [das Cidades] em nível municipal era algo positivo porque tinha que atender as realidades, a Constituição de 1988 joga para os municípios as atribuições todas, não poderia ser algo que vem do Governo Federal porque era governo FHC (toda luta pelo Estatuto se deu com FHC no governo).

Fim de um ciclo de Reforma Urbana

No livro novo da Ermínia [O impasse da política urbana no Brasil (2011)] está presente a ideia de que a gente completou um ciclo de Reforma Urbana, que ele se encerrou. O que a gente está vivendo hoje é uma anti-Reforma Urbana, é o oposto. Cidade transformada em mercadoria, políticas de pacificação pela força, pela polícia, a militarização das cidades, a criminalização dos movimentos ou sua cooptação, os instrumentos de Reforma não funcionando, os de favorecimento da especulação funcionando e despejando recursos públicos como nunca, desde o regime militar, para fazer das cidades um negócio.

Então a Ermínia discute este encerramento do ciclo democrático popular do pensamento sobre a reforma Urbana: temos que inventar uma coisa nova. Aquele nosso ciclo se encerrou, os 10 anos do Estatuto das Cidades são o atestado de óbito da promessa de Reforma Urbana que não se realizou.

A gente tem que repensar nossas estratégias e táticas de luta, se é pela resistência, como fazer esta resistência, como segurar a mercantilização da cidade. Ela é muito crítica a todo este ciclo muito institucionalista-legal, achando que a gente tem uma boa lei a gente ia garantir uma Reforma Urbana no Brasil. Critica os que acabaram investindo todas as forças nisso, inclusive o Fórum de Reforma Urbana, que se pauta muito, até hoje, pela questão da regulação.

MCMV e a conjuntura política do “pacto de conciliação de classes”

Ao final do mandato o Lula disse que o Minha Casa, Minha Vida era o grande emblema do que ele queria para o Brasil, um “pacto de conciliação de classes”. No MCMV ninguém perde. Não importa que o teto seja na periferia, sejam casas inabitáveis. Os trabalhadores da construção civil vão ganhar emprego. Tem escassez de trabalhador, aumenta salário. Mestre de obra, hoje, está ganhando dez mil, um bom pedreiro tira cinco mil por mês. Os sindicatos também poderiam se fortalecer neste contexto. Os proprietários de terra vão ganhar porque vai derramar dinheiro, as terras vão subir de preço, eles vão realizar a renda da terra. As construtoras também vão ganhar. Os investidores que compraram ações destas empresas também.

Enfim, o Lula fazia uma palestra para os empresários da construção civil no RJ quando disse que sempre foi a favor do entendimento entre capital e trabalho. O MCMV é o emblema da idéia de conciliação de classes que ele sempre defendeu, apesar dos empresários sempre terem achado que ele era muito raivoso, muito radical, etc. Então isto é um pouco a síntese do Lulismo, expressão que o André Singer utilizou para definir o que é este novo pacto, que o Chico de Oliveira chama de hegemonia às avessas. Todo mundo parece estar ganhando.

Mas o que está acontecendo na realidade? Pra quem está indo todo este subsídio? Quais são as cidades que estão surgindo? Qual é a qualidade da moradia? O novo padrão de segregação, de depredação ambiental, captura de recursos públicos, de inviabilização da mobilidade urbana, das redes de saneamento. Tudo isto tem que ser discutido porque é impossível que todo mundo esteja ganhando com o capitalismo e ninguém perdendo.

A forma-partido e a autonomia dos movimentos

Eu tenho dúvida se a questão é falta de partido. Evidentemente o PT organizou toda a experiência histórica da esquerda no Brasil durante 20 anos e que teve um papel fundamental, isto não tenho dúvida. Agora, será que a gente precisa reinventar novos partidos? Estão surgindo aí, PSOL, também já implodindo. É um momento de reivindicar autonomia dos movimentos. Alguns movimentos estão mais interessantes, mais combativos, a saída das 50 lideranças do MST é um reflexo disso. Há um desejo da construção de organizações autônomas, que não estão dependentes do jogo institucional, que não estão se atrelando a mandatos ou a partidos. A forma partido também tem que ser questionada, não sei se a forma partido é importante pra gente no momento, provavelmente, mais a frente, pode voltar a ser.

É importante que a gente perceba que o partido cumpriu um papel decisivo em toda esta parte da “modernização” legislativa. O capital reivindica o Estatuto das Cidades. A PEC da moradia, que era pra ter 2% do PIB destinado à moradia estava lá: União dos Movimentos de Moradia, Movimento Nacional de Luta pela Moradia, SINDUSCOM, SECOVI, todos assinando junto. Na folha de são Paulo tinha lá: janela da construção, que era o espaço da SECOVI e do SINDUSCOM para falar sobre o que deveria ser a política de habitação. Nós somos o sindicato da habitação, nós somos batalhadores da habitação. Os empresários querem fazer casa porque é o negócio deles. Quer dizer, estamos todos felizes com o MCMV.

Provocações: e Porto Alegre?

Na questão da autogestão, eu faço uma provocação pra gente pensar o que fazer: pra mim é uma incógnita, como que nos anos 80 e 90 em que havia o auge das possibilidades de prática de autogestão em vários campos, ainda mais na habitação, não tenha acontecido aqui, justo em Porto Alegre, o que aconteceu lá em SP na gestão Erundina. Todo este ciclo envolvendo movimentos urbanos, arquitetos envolvidos em construir uma nova cidade, novas moradias. Aqui teve toda a experiência do OP, entre outras, mas o ciclo da autogestão na produção da cidade, da moradia, não aconteceu aqui dentro. Ainda mais assim, próximo de Montevidéu, a proximidade que vocês têm com a cultura cisplatina uruguaia e gaúcha. É estranho que não tenha acontecido naquele momento, precisaria entender por quais motivos não aconteceu.

Mas a esta altura do campeonato, apostar em fazer autogestão... quer dizer, a gente está fazendo autogestão porque é uma história paulista que faz sentido continuar explorando caminhos alternativos, desdobramentos daquela história. Em câmera lenta, meio vendo o que acontece, pra não deixar morrer a experiência. Como vocês não tiveram a experiência fundadora anterior, inventá-la a esta altura do campeonato, eu não tenho certeza se é uma boa estratégia. Parece-me que vocês, como um grupo crítico, autônomo, que faz pesquisas urbanas, que está entendendo o que está acontecendo em Porto Alegre, conseguir mobilizar as pessoas na resistência aos eventos, copas e grandes empreendimentos e ter bons documentos, bons textos, boas críticas, divulgá-las, usar isto aqui como um trombone público do que está acontecendo na cidade. É um pouco o que os situacionistas falavam, precisamos fazer as palavras voltarem a ser perigosas. Se tiver grupos nas diversas cidades brasileiras que façam as palavras voltarem a ser perigosas e que não façam pesquisinha financiada pelo ministério das cidades... Ter um foco aqui em Porto Alegre irradiando, ter em São Paulo, ter no Rio, no nordeste.

Mais do que vocês se preocuparem em organizar canteiro, aprovar projeto na Caixa, etc. Até pode ser válido em dado momento, mas isto não pode esgotar a energia de vocês de fazer crítica radical ao modelo de cidade gaúcha atual. Passou o ciclo do PT, dos OPs, de Porto Alegre como referência de democracia radical. O que é a nova Porto Alegre do novo PT, emblematizado na cidade da copa, todo papel do Gerdau na cidade, com o museu Iberê Camargo, com a Bienal do Mercosul, etc. Estas viradas de uma cidade que tem uma cultura política muito acima do restante do Brasil, mas que quando dá a cambalhota no sentido oposto é absolutamente perverso e trágico o que acontece aqui, isto precisa ter muita gente debatendo, estudando, provocando, estimulando formas de resistência, de confrontação, de ação direta criativa, inventiva.


Então assim: palavras perigosas, dados atualizados, boas formulações, trabalho de base, colaborar com a resistência das comunidades, pensar formas de ação direta de novo tipo, que não sejam aquelas formas tradicionais do povo se organizar, se mobilizar. Parece-me que hoje isto é politicamente mais interessante do que querer fazer alguma coisa melhorzinha no MCMV-E.

Cidade - Centro de Assessoria e Estudos Urbanos Rua Antão de Farias, 50 - Bairro Bom Fim
CEP 90035-210 - Porto Alegre/RS - Fone/Fax 51 3264 3386 - cidade@ongcidade.org